O único romance completo que o escritor Vergílio Ferreira deixou inédito, «Promessa», escrito em 1947 e que é o seu primeiro «romance de ideias», chega hoje às livrarias portuguesas, numa edição da Quetzal.
A obra, que teve como primeiro título «Sequência», é o único romance nunca publicado do espólio de Vergílio Ferreira (1916-1996), que está a ser estudado por uma equipa de investigadores dirigida pelo professor Hélder Godinho, a quem o escritor referiu este texto há 30 anos, quando ele preparava uma tese de doutoramento sobre a sua obra.
A importância deste romance, concluído entre «Vagão J» e «Mudança», reside no facto de ser o primeiro «romance de ideias» do escritor português, um conceito que criou para contrapor ao de «romance-espetáculo», que apenas conta uma história, e para designar uma obra em que as ideias também são protagonistas.
Em «Promessa», encontra-se já «o que virá a ser um dos temas fundamentais: os seus conflitos e dramas interiores, o combate pela liberdade e pela generosidade, o confronto com o racionalismo», indica a editora na contracapa.
Como explicam na introdução os professores Hélder Godinho e Fernanda Irene Fonseca, responsáveis pela preparação do original para publicação, trata-se de «um romance de temática hegeliana (a epígrafe é mesmo uma frase de Hegel), como será “Mudança”, em que é trabalhado o conflito entre o intelectual não-activo e não comprometido na transformação social do mundo, Sérgio, e Flávio, filho de um activista político, que deseja mudar a sociedade. Os dois vão-se confrontando ao longo de todo o romance, apesar de Sérgio ter acolhido e possibilitado a educação de Flávio, depois de o pai deste ter passado à clandestinidade».
Na opinião dos estudiosos da obra do Prémio Camões 1992, este romance nunca chegou a ser publicado porque Vergílio Ferreira escreveu, pouco depois, «Mudança», que continha já «um equilíbrio entre as ideias e o sentimento» que distingue, como o autor teorizou posteriormente, o romance-problema do puro ensaio.
A decisão de publicar agora o romance, no âmbito da (re)edição da obra completa de Vergílio Ferreira pela Quetzal, coube à equipa de investigadores e baseou-se numa afirmação do escritor feita no seu diário «Conta-Corrente III»: «Saber como se errou, progrediu, hesitou ¿ tudo são modos de ampliar o conhecimento de um autor».
Francisco José Viegas, editor da Quetzal, corrobora: «Vergílio Ferreira disse várias vezes que se deve publicar tudo de um autor e nunca se desfez de nenhum dos seus textos, mesmo dos mais antigos», tendo deixado um espólio vasto, bem preservado e organizado.
Tal como a novela «A Curva de Uma Vida», o primeiro texto que o autor escreveu, em 1938, e que também estava até agora inédito, «Promessa» ajudará, segundo a editora, «a compreender o percurso literário, político e existencial de Vergílio Ferreira».


