O reencontro entre um abusador e a sua vítima, quinze anos depois da agressão sexual, é retratado em «Blackbird», peça do dramaturgo britânico David Harrower que se estreia quinta-feira no Teatro Nacional D. Maria II.
Na peça, traduzida e encenada pelo cineasta Tiago Guedes, o actor Miguel Guilherme é Ray, um homem de 55 anos que, de repente, se vê confrontado com o passado quando Una (Isabel Abreu), de 27 anos, aparece de surpresa no seu local de trabalho.
Na altura com 12 anos, Una revive agora tudo o que se passou e interroga Ray sobre a sua vida actual e passada, para tentar compreender quais as razões e os sentimentos que a levaram a procurá-lo, tantos anos depois.
Raiva, culpa e outras emoções fortes surgem quando ambos recordam a relação apaixonada que viveram, num texto escrito de uma forma «muito realista e verdadeira» – «porque as pessoas não falam com grandes frases, falam cheias de incoerências e de interjeições, de repetições e de coisas mal construídas» -, que transporta os espectadores para «o centro de uma tempestade emocional», segundo Tiago Guedes.
«É um duelo entre dois personagens que são únicos, porque são marcados por uma transgressão que os une, e estão, de alguma forma, condenados a recriar o que os uniu e que os mudou para sempre», disse à Lusa o encenador.
Não foi o assunto de que trata a peça – a pedofilia – que interessou Tiago Guedes, mas «todo o trajecto emocional da história destas duas personagens e a forma como o autor constrói o texto».
«Porque ele basicamente brinca com os nossos preconceitos e faz-nos acreditar que podemos estar errados, muitas vezes, e depois, no fim, volta a tirar-nos o tapete. Foi isso que me agarrou, foi a forma como o texto está escrito, mais do que o tema», apontou.
Interessou-lhe também o facto de ser «uma peça toda sustentada nos actores e na forma como eles transformam em vida as palavras do autor» e foi isso que quis que o público presenciasse.
«É completamente ambíguo tudo o que se está aqui a passar. Damos por nós, neste espectáculo, incapazes de fugir à transgressão moral que ele nos expõe e, de repente, através das verdades de cada um, ele leva-nos quase a querer perdoá-los e a fazer com que seja possível que aquilo exista enquanto uma história de amor», observou.
Ao mesmo tempo, «ele está com outra cordinha a puxar, a fazer-nos odiarmo-nos a nós próprios por essa possibilidade, por abrirmos sequer essa possibilidade», acrescentou.
«Portanto, cria-nos um dilema interno muito violento. E depois dessa primeira sensação, fascinou-me poder trabalhar esse vasto leque de emoções e de possíveis significados», explicou.
No dia 07 de Fevereiro, após o espectáculo, haverá uma conversa do elenco com o público sobre o processo de construção do espectáculo, para maiores de 16 anos.
Esta produção do Teatro Nacional D. Maria II, em colaboração com a produtora de audiovisuais Take it Easy, «Blackbird» vai estar em cena até ao dia 21 de Fevereiro, de quarta-feira a sábado às 21:45 e ao domingo às 16:15, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.
Veja, abaixo, as fotos do ensaio para imprensa:



