A Associação Portuguesa de Escritores (APE) atribuiu o Grande Prémio de Literatura Biográfica 2010/2011 ao livro «Tempo Contado», da autoria de J. Rentes de Carvalho, de acordo com o seu comunicado, hoje divulgado.
«Tempo Contado», o livro, colige o diário de José Rentes de Carvalho, escrito nos anos de 1995 e 1996, e foi originalmente publicado na Holanda, onde o autor se fixou em 1956.
O autor de «Ernestina» retomaria o título em 2007, antes da publicação da obra em Portugal, com um blog – tempocontado.blogspot.com – que deu por encerrado, por manifesta falta de tempo, no passado dia 19 de julho, há exatamente uma semana.
Sob o título «Despedida», Rentes de Carvalho escrevia então sobre a dificuldade da partida: «Custa, porque são quase seis anos de escrita, de momentos gratificantes, boas surpresas, algumas amizades e muitas provas de simpatia, mas chega sempre a altura em que a vontade não basta, é preciso tempo».
O escritor desabafa então que «só para privilegiados como Napoleão [o tempo] se desdobra em quarenta e oito horas», e prossegue: «O meu continua nas vinte e quatro. E essas tão cheias que, nas cinco ou seis que durmo, continuo em sonhos a apressar-me, a afligir-me de não fazer a tempo o que devo ou prometi».
«De modo que o Tempo Contado vai fechar», diz o escritor na sua última entrada, acrescentando que «de certeza até dezembro», sem deixar de apelar ao deus do tempo, Cronos, «que conhece o mistério das horas», de modo a alongar as suas.
«Se o não fizer, então o Tempo Contado deixa de contar, despede-se de todos com o bom sentimento de que valeu a pena, não foi tempo perdido».
José Rentes de Carvalho, que nunca esquece as origens trasmontanas, nasceu em Vila Nova de Gaia, estudou Românicas e Direito em Lisboa, e abandonou o país da ditadura do Estado Novo, no início da década de 1950, por motivos políticos, passando a viver no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris, antes de se fixar na Holanda, como assessor do adido comercial do Brasil.
Concluiu a licenciatura em Letras, com uma tese sobre Raul Brandão, na Universidade de Amesterdão, onde lecionou Literatura Portuguesa até 1988. A partir dessa data, dedicou-se exclusivamente à escrita.
Rentes de Carvalho é o autor de «Montedor» (1968), «A Sétima Onda» (1984) e «A Amante Holandesa» (2003), entre outras obras, somando mais de duas dezenas de títulos, tendo abordado os diferentes géneros, da crónica, ao conto, da novela, ao romance.
«La Coca» é a última obra do escritor publicada pela Quetzal.
O Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE foi atribuído por unanimidade a «Tempo Contado», publicado em 2010.
Integraram o júri, o poeta José Manuel de Vasconcelos, distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores por «A mão na água que corre», os professores, críticos e autores Luísa Mellid-Franco e Miguel Real, e o escritor de Castelo Branco José Correia Tavares, que escreveu «O Natal dos Porcos» e presidiu o júri.
Dotado de cinco mil euros, o galardão é bienal e admitiu a concurso, nesta edição, 50 obras de escritores portugueses, publicadas por 25 editoras, entre biografias e autobiografias, memórias e diários.
O prémio tem o patrocínio da Câmara Municipal de Castelo Branco.
Nas anteriores edições, o Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE distinguiu Maria Teresa Saavedra, Eduardo Prado Coelho, Norberto Cunha, Cristóvão de Aguiar, João Bigotte Chorão e A. Campos Matos.
«Tempo Contado», de J. Rentes de Carvalho, foi editado pela Quetzal.
Lusa

