O papa emérito Bento XVI cumpre hoje um ano de renúncia ao pontificado, retirado num convento do Vaticano, onde lê, escreve, medita, passeia, reza e recebe algumas visitas, incluindo Francisco.
Afastado do conclave que elegeu o sucessor, Bento XVI foi levado de helicóptero do Vaticano para a residência de verão dos papas em Castel Gandolfo, a cerca de 30 quilómetros de Roma.
Antes das 20h00 locais de 28 de fevereiro passado, vestindo uma simples sotaina branca, Bento XVI despediu-se, a partir da varanda da residência pontifícia, dos residentes locais.
«Deixarei de ser o sumo pontífice da Igreja Católica às oito da noite. Serei um simples peregrino, que inicia a última etapa da sua peregrinação nesta terra», disse então o teólogo alemão.
Depois de ultrapassada a estupefação inicial, causada pela renúncia de Bento XVI, a pergunta que se colocava era se seria possível a convivência entre dois papas no Vaticano.
«A mim, parecia-me absolutamente claro que não havia razões para qualquer receio», disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.
Prova disso foi a presença, no sábado passado, de Bento XVI na basílica de S.Pedro, para assistir à criação de 19 novos «príncipes da Igreja» pelo papa Francisco, que recebeu Joseph Ratzinger com um abraço.
Esta foi a primeira vez que dois papas, um em exercício e outro emérito, se encontraram na mesma cerimónia na basílica de S.Pedro e Bento XVI tirou o solidéu para mostrar o seu respeito a Francisco.
Bento XVI também quebrou o silêncio, depois de um ano retirado da vida pública, para garantir, numa carta enviado ao jornal La Stampa, «que são absurdas as especulações» sobre alegadas pressões ou conspirações após a renúncia, sublinhando «não existir» um governo partilhado na Igreja.
O papa emérito respondia às perguntas do vaticanista do La Stampa Andrea Tornielli, sobre as razões que levaram à renúncia.
«A única condição de validade é a plena liberdade da decisão. As especulações sobre a invalidade da renúncia são simplesmente absurdas», escreveu o papa, pela primeira vez depois de se ter demitido.
O Vaticano não pretende esconder Bento XVI. Assim, informou que o primeiro telefonema de Francisco, depois de ser eleito, foi para o antecessor. Tal como também transmitiu, com todos os pormenores, o primeiro encontro histórico entre os dois papas, a 23 de março, em Castel Gandolfo.
«Ele [Bento XVI] agora vive no Vaticano e alguns perguntam-me como pode acontecer isto, dois papas no Vaticano. Não te incomoda? Não trabalha contra ti», contou Francisco aos jornalistas, no voo de regresso do Brasil, onde decorreram no verão as Jornadas Mundiais da Juventude.
«Encontrei uma frase para isto: é como ter o avô em casa, mas um avô sábio, numa família em que o avô está em casa, é venerado, amado, ouvido», disse Francisco.
Joseph Ratzinger ficou em Castel Gandolfo até 01 de maio, data em que se mudou para o Vaticano, para dar início ao retiro no convento ‘Mater Ecclesiae’, mandado construir por João Paulo II, que queria ter «um centro de silêncio, de penitência e de oração», confiado, por turnos, a várias ordens de freiras.
Além de ouvir e tocar no piano os clássicos preferidos como Bach, Beethoven ou Mozart, Ratzinger, de 86 anos, escolheu uma vida de clausura que raramente quebra.
Bento XVI, que completa 87 anos a 16 de abril, tem uma vida austera. Levanta-se às 05:30 (hora local), oficia missa e dedica a manhã à leitura.
Após a refeição, faz uma pequena sesta, seguindo-se um passeio com o secretário pelos jardins do convento. Depois das orações da tarde, regressa à biblioteca para continuar os estudos teológicos.
De acordo com a agência noticiosa espanhola EFE, Bento XVI não perde o telejornal das oito e duas horas mais tarde recolhe-se aos aposentos.
Lusa


