Chama-se «Não sei nada sobre o amor» e é o primeiro romance de Júlia Pinheiro. O livro é apresentado, amanhã, por Nuno Lobo Antunes e a autora no reservatório da Mãe d’Água nas Amoreiras.
Editado pela Esfera dos Livros, «Não sei nada sobre o amor» aborda a vivência do amor e do sexo no feminino. Diferentes personagens vivem a história de mulheres distintas com uma vivência complicada ao nível da sexualidade. O livro é dedicado ao pai da apresentadora.
O «Moda e Social» antecipa-lhe, em primeira mão, um excerto do romance.
«Na geração de Maria da Glória, o amor era um infortúnio.
Não servia para nada e só trazia aborrecimentos. Com
o amor não se comprava terra nem se aumentava o rebanho.
Nessa altura, em São Pedro do Ribeiro, o amor não era um objectivo nem um desígnio. As raparigas da terra não liam romances e os rapazes pouco sabiam sobre como fazer a corte, e o enamoramento. Ali, os sonhos faziam‑se
no esforço e no trabalho. Não havia tempo para suspiros e inquietações. A felicidade era uma malga cheia e uma cama debaixo de telha. O resto era fantasia, e, como tal, não existia. As mulheres mais velhas falavam de submissão, as mais novas sabiam que o destino era feito de filhos, pouco afecto e muita dedicação. As mães passavam às filhas o credo simples de uma existência segura e inquestionável: labuta, obediência e Deus, para justificar aquilo que não se desejava. E o que se desejava também, porque não se podia obter. Quando é que começou a desgraça de Maria da Glória? No dia em que morreu a mãe? Ou na tarde fatal em que António de Mendonça entrou na venda do pai? Durante muito tempo, o caso foi discutido na terra e nunca ninguém conseguiu chegar a uma conclusão.
Maria da Glória não sabia nada sobre o amor, mas achou
que podia começar a aprender no momento em que pousou os
olhos míopes em António, um latagão alto e desempenado, herdeiro do homem mais abastado do burgo. Na altura ninguém
deu por nada. Dezenas de homens entravam na venda todos os
dias e Maria da Glória não ligava a nenhum. Atrás do balcão
de madeira velha, emparedada entre as sacas das farinhas e as pipas de vinho, Maria da Glória exibia uma indiferença absoluta enquanto atendia os pedidos dos fregueses do pai, homens da terra que se deixavam ficar pelo tasco, horas a fio, à procura de companhia e de um pouco de calor.
Maria da Glória era conhecida por ser uma beleza e por
nunca mostrar os dentes a ninguém. Deslizava silenciosa no
balcão, vigiada pelo pai, que impunha o respeito, mas que não podia impedir o olhar guloso da plateia masculina que se arrumava no fundo da venda para emborcar uns canecos e jogar às cartas. A filha de Manuel Severino era alta, loira, olhos azuis sem expressão e uma boca capitosa. «Linda e esquisita», segredava o Jaime da drogaria aos amigos da sueca. Observava‑a horas a fio, enquanto jogavam às cartas na mesa encardida da
venda. E nada. Nem uma chispa de interesse por eles ou por
qualquer conversa que se desenrolasse à frente dela.
– A rapariga deve ser um bocado lerda. Os olhos parecem os
de uma vaca. Muito quieta para o meu gosto – opinava Jaime,
revelando‑se no velho ditado que apostava que quem desdenha
quer comprar.
O resto do grupo ria‑se da maldade de Jaime, conhecido por
ter a língua afiada e pouco tino em matéria feminina.
Na verdade, ninguém sabia nada sobre Maria da Glória.
Não se sabia o que ela pensava ou desejava e nunca ninguém
tinha reparado que o olhar parado seria hoje designado
como um caso alarmante de miopia. Nem mesmo o pai, que
a educava com mão-de-ferro, convencido de que só a autoridade poderia compensar a falta da mãe.



