Dr. Nuno Lobo Antunes,
Escrevo-lhe para lhe fazer um pedido. Um pedido banal, mas que para mim faz toda a diferença.
Mas vou apresentar-me primeiro: o meu nome é Joana, tenho 30 anos, sou fotojornalista e colaboro ocasionalmente com a revista Lux. Sou, desde Agosto de 2008, paciente de cancro da mama. Digo Agosto de 2008 porque só então me decidi a procurar ajuda médica para me tratar. Durante um ano inteiro consumi-me com a dúvida de ter ou não ter cancro e com o medo de retalhar o meu ego e o meu corpo feminino.
Então, na verdade, sou paciente desde 2007 e sete anos após a minha mãe ter partido e muito ter lutado contra o cancro do cólon.
Agosto de 2008. Estava decidida que queria ajuda e que não queria morrer, que tinha tido o exemplo sete anos antes de não desistir, não baixar os braços, não entregar as armas. Fazer tudo por tudo. Papel e caneta. Organizar tudo à volta. Lista de prioridades. Enverguei a armadura e fui para o IPO Lisboa. Não fui sozinha. Fui com uma amiga de longa data, uma senhora de 50 anos que passou também pelo mesmo, que me vê como filha e me arrastou pelas orelhas.
Foi tudo muito rápido. Em dois dias (após ter-lhe confessado que há um ano que vivia com o fantasma) já estava sentada na sala de espera para consulta. O Dr. João Vargas Moniz recebeu-me. Um médico jovem, tímido, de poucas falas, que fala baixinho, que andava sempre cheio de pressa entre o corredor e o consultório, a dividir-se em mil e uma tarefas, a tentar responder a todos os pedidos de pacientes ou dos próprios colegas, que não me conhecia de lado nenhum e já tinha o sorriso sincero da amizade.
Foi bom sentir que tinha sido recebida de alma e coração. Os braços dele estavam abertos, mas sem abraçar porque isso parece mal. Fiquei surpreendida porque sinceramente estava à espera de entrar num consultório e encontrar o carrasco. São as ideias que se formam cá fora. Estupidamente, diga-se.
Apesar do seu tom ligeiro na voz e da postura gentil, não se coibiu nas palavras escolhidas para me dizer o que tinha a dizer. Foi directo e não enrolou a língua. Se por acaso deixou de me responder a alguma coisa, foi porque eu deixei de perguntar. A verdade é que também não fiz muitas perguntas. Já tinha estado dois anos a cuidar da minha mãe e sabia que não era pêra doce e o que implicaria. O meu avô, que era enfermeiro, já tinha explicado a toda a família o que significava ter cancro. Já não era novidade. Levei o meu pai comigo à consulta que iria determinar o que vinha a seguir. O Dr. João Vargas Moniz disse o que havia para dizer, o meu pai ficou em estado de choque e teve de ir para a rua chorar e eu continuei de armadura envergada.
«Joana, não precisa de acompanhamento? Está tudo bem? Não quer acompanhamento psicológico?» Não. O que eu quero é dar início ao tratamento. Seja o que for. Custe o que custar. A armadura eu não tiro. Quanto mais depressa começarmos, mais depressa me livro disto. E custou! Custou muito. Custou acordar da anestesia após a mastectomia e, por não estar suficientemente drogada, sentir tamanhas dores, como se naquele momento ainda me estivessem a arrancar o peito a sangue frio. Essa marca é maior do que a que ficou no peito. Nunca tinha pedido a Deus para morrer. Desta vez era só o que eu pedia. Dia seguinte, 8h30 e pequeno-almoço tomado, recostada na cama a falar com uma enfermeira que conhecia, já cheia de bom humor e a dar risadas, sou surpreendida quando olho para o lado e vejo o Dr. Vargas Moniz apoiado na aduela da porta e com um sorriso do tamanho do mundo:
«Então, Joana? Nem parece que foi operada ontem. Gosto de a ver assim tão bem-disposta.» Pois, já não tinha dores físicas, pelo menos. E além disso sentia-me mimada e não esquecida por um médico qualquer. Passei três dias e três noites no IPO após a cirurgia. Não foi muito tempo, mas o tempo suficiente para me sentir o menor dos problemas naquele 4º andar.


