Durante quatro meses, uma vez por semana, Alexandra Ferreira dirigiu-se à casa da Pedra da Nau, a residência onde Ricardo Salgado, de 71 anos, estava em prisão domiciliária, para uma extensa conversa. Dessa longa entrevista surgiu o livro “BES – Os Dias do Fim Revelados”, que é “o outro lado da história”, segundo a autora: “De alguma forma, todas as versões da história já estavam contadas. Faltava contar a visão do protagonista. Interessou-me essencialmente saber como é que um homem que foi banqueiro toda a vida (e acho que não encontramos par em relação a outros banqueiros, devido a toda a história que está por detrás do nome) se reinventa no dia a seguir, quando tudo isso desaparece, e como é que está a viver. Fiz este trabalho com muito respeito, porque esta é talvez a fase mais difícil da vida
de Ricardo Salgado. Estava em prisão domiciliária, com tudo o que isso acarreta emocionalmente.”
A jornalista descreve o homem que encontrou: “Apesar de haver um compromisso da minha parte de invadir o mínimo possível a privacidade de Ricardo Salgado, é óbvio que, para ele e para a família, não é tranquilo receber um estranho em casa. Fui sempre muito bem recebida, a confiança foi-se ganhando de semana para semana. Desengane-se quem acha que ele está destruído. Não é de todo verdade! Agora, é
humano e tem sentimentos, sobretudo porque há uma convicção da sua parte de que as coisas podiam ter tido um desfecho diferente. Não diria que está zangado (pelo menos não o expressou), mas está triste e muito empenhado em repor o seu lado da história, convicto de que isto poderia ter acontecido de outra maneira, e de que não trouxe benefícios para ninguém.”
Alexandra testemunhou a importância da família durante as suas conversas com Salgado, e destaca a relação especial entre o ex-banqueiro e a mulher, Maria João. No livro,escreve: “Ri-se com a mulher, Maria João, a quem trata como se não houvesse outra possível no mundo. Hoje, em casa, como nunca antes, diz que é a sua maior companheira. Faz humor quando ela fica triste por não poder levá-lo quando sai… Só ele está privado da sua liberdade, mas estão os dois aindano barco.”
Numa das conversas, acabaria por confessar: “A Maria João é a minha maior companheira e apoio.” Também os netos visitavam frequentemente o ex-banqueiro: “Por aqueles dias, os netos correm pela casa. A filha Catarina está em Portugal de férias para estar com o pai. Durante alguns dias, Ricardo Salgado não é o ex-banqueiro… não é notícia dos jornais. É pai e é avô.” No final, Alexandra fala da ideia com que ficou de Ricardo Salgado, não o empresário, mas o homem. “Surpreendeu-me o enorme sentido de humor que tem. Isso é uma característica que não conhecemos. É uma pessoa que tem uma visão muito própria do país e de como deve ser governado, que não vê as coisas a preto e branco. E é um homem muito cavalheiro e muito educado.”

