Sexta-feira, Março 13, 2026
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Christa Wolf morre aos 82 anos

A escritora Christa Wolf, considerada a maior romancista leste-alemã, morreu esta quinta-feira num hospital de Berlim, aos 82 anos, após doença prolongada, anunciou a editora Suhrkamp.

Nascida em 1929 na Prússia Oriental, atual território polaco, Wolf contribuiu para a afirmação de uma literatura própria na ex-República Democrática Alemã (a antiga RDA), com os seus primeiros romances «Notícias de Moscovo», a primeira obra, publicada em 1961, e «O céu partilhado», de 1963, no qual o sonho de uma nova sociedade se confunde com a emergência do ser individual.

O Presidente da Alemanha, Christian Wulff, sublinhou hoje, citado pela agência noticiosa AFP, que os livros da escritora «comoveram e entusiasmaram o país [a Alemanha], estimulando a reflexão».

«Para muitos leitores e leitoras, Christa Wolf era mais do que uma romancista. Na sua atitude fora de moda e no entanto tão atual, ainda acreditava no Bem e na capacidade de um ser humano melhor», acrescentou Christian Wulff.

«Com a morte de Christa Wolf, a Alemanha perdeu um dos seus mais importantes autores contemporâneos», sublinhou por sua vez o ministro alemão da Cultura, Bernd Neumann, antes de qualificar os seus livros como «obras-primas de alto nível artístico».

Christa Wolf recebeu em 1980 o prémio Georg-Büchner, a mais importante distinção literária alemã, e por duas vezes o Prémio nacional da RDA, além dos prémios Schiller, em 1983, e Nelly Sachs, em 1999, duas distinções que evocam dois importantes poetas de língua alemã – o autor da «Ode à Alegria» e a Nobel da Literatura, resistente anti-nazi, que se fixou na Suécia.

Wolf recebeu o Prémio Alemão do Livro pela sua carreira, em 2002. Em 2010, foi distinguida com o Prémio Thomas Mann de Literatura pelo conjunto da obra. O júri do prémio alemão destacou então a capacidade da escritora para reconhecer «as lutas, as esperanças e os erros do seu tempo, de uma forma crítica e auto-crítica, com profunda seriedade moral e narrativas poderosas».

Em 1990 o então ministro francês da Cultura, Jack Lang, concedeu-lhe o grau de Oficial das Artes e das Letras.

Na década de 1990, as revelações dos media sobre os seus contactos com a Stasi, a política secreta da ex-RDA, no início da década de 1960, acabaram por degradar a sua imagem, forçando-a a um exílio temporário nos Estados Unidos.

Na sua obra destacam-se «À procura de Christa T.» (tradução livre de «Nachdenken über Christa T.»), de 1968, «Infância modelo» («Kindheitsmuster»), de 1976, «O que resta» («Was bleibt»), de 1979, ou «Auf dem Weg nach Tabou», de 1994, já posterior à reunificação alemã, livro que teve em língua inglesa o título «Parting from phantasms», no qual aborda o impacto posterior de «dogmas sagrados» provenientes de um tempo passado.

«Leibhaftig» («Encarnação», em tradução livre), de 2002, sobre uma mulher doente no bloco de Leste, nos últimos anos da Guerra Fria, é uma das suas derradeiras obras.

Como em «Acidente», uma das primeiras obras de ficção sobre Chernobyl, que também abordava a doença como metáfora, «Leibhaftig» centra-se numa mulher que, na ex-RDA, espera o tratamento que a pode salvar e que só a medicina ocidental lhe pode garantir.

Em Portugal, estão traduzidos «Acidente: notícias de um dia», na D.Quixote (1990), e «Medeia: vozes» (1996), «Unter den Linden – Três histórias inverosímeis» (1991) e «Cassandra: narrativa» (1989), editados na Cotovia.

A escritora esteve em Portugal a convite do Goethe Institut – Instituto Alemão, em 1996, para um encontro com leitores.

Amiga de Gunther Grass, mãe de duas filhas, Christa Wolf era casada com o escritor Gerhard Wolf.

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