Ninguém poderá afirmar com inteira segurança que a recente decisão judicial garante a esta criança uma vida mais feliz, uma evolução emocional mais harmoniosa.
O futuro o dirá, mas podemos desejar que ele se cumpra sem mais sobressaltos do que os que a vida, naturalmente, a
todos oferece, e se algo pudermos fazer nesse sentido, colaborar para que seja saudável o seu desenvolvimento.
Seguro é que a justiça foi feita de acordo com as leis, e que o não cumprimento destas levantaria graves precedentes. Espero, no entanto, que desta história se tirem algumas
lições, se ganhe experiência, que não fique tudo na mesma, porque se assim fosse nada teríamos aprendido. A experiência não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece.
O que sucedeu neste caso deixou-me muitas vezes surpreendido, e outras indignado. A minha revolta maior vai para a comunicação social que, salvo algumas excepções (de que a revista Sábado é um exemplo), alimentou de forma insistente o que agora ela própria chama de circo
mediático.
Foi por demais aparente o apoio da esmagadora maioria da imprensa ao «sargento», muitas vezes omitindo dados essenciais da história, inclinando o terreno da «opinião pública» em vez de a esclarecer.
É difícil ir contracorrente, exige coragem e honestidade intelectual, mas é função nobre de uma imprensa de qualidade. Os media foram actores nesta tragédia, mas
pretendem fazer crer que foram meras testemunhas. Será que os jornalistas que se queixam (com razão) da lentidão da justiça não se interrogam sobre de que forma colaboraram eles também para que a justiça demorasse?
É que se é legítimo num artigo de opinião assinado defender o que bem aprouver ao articulista, já a notícia anónima, grosseiramente enviesada por juízos pessoais, pode ser veneno que mata a base da formação de opinião.
Não sou psicólogo, mas todos os dias trabalho com psicólogos, lado a lado. Todos os dias lhes peço conselho profissional e escuto, atento, o que têm para me dizer. Por eles me envergonho, quando me recordo da figura lamentável, do exemplo de descontrolo emocional ou de desonestidade profissional, de que outros, com acesso aos meios de comunicação, deram exemplo público.
Não me passa pela cabeça pensar que não estejam completamente convictos da justeza das suas posições, e que seja inteiramente genuína (ainda que da minha parte injustificada) a sua indignação.
O que me parece evidente é que um psicólogo tem necessariamente de ser ponderado, quer nas afirmações quer na avaliação dos factos, e presumir sempre que é muito
complexa a mente humana, que são muitas as variáveis que a afectam, e que é sempre algo incerto o futuro.
Há centenas de anos, Hipócrates escrevia: «A arte é longa, a vida breve, a experiência enganadora, o juízo difícil.» Qualquer profissional de saúde, com um dia de experiência,
reconhece a enorme sabedoria destas palavras. Isto para não falar da gritante desonestidade intelectual (para a não classificar de outro modo), o fazer juízo sobre duas partes em contenda, quando se criou intimidade com uma delas, e pretender que as mesmas são opiniões profissionais.
Mais grave ainda ter sido consultor psicológico a pedido de uma delas, e pretender que a opinião é isenta.
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