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Alta Costura por Filipa Guimarães: ‘Calma! Os cães não são pessoas nem as as crianças adultos’

“Calma! Os cães não são pessoas nem as as crianças adultos” por  Filipa Guimarães Sim, não há melhor amigo do Homem. Sim, a uns só lhes falta mesmo falar. Sim, gostamos mais deles do que de certas pessoas. Sobretudo, se estas forem muito más. Aí, deviam estar presas. Não obstante, ando a constatar que existe uma transferência algo excessiva de afetos das pessoas para os cães. Quem diz cães diz animais domésticos em geral. É inegável que foi um passo grande eles deixarem de ser “coisas” e passarem a terem identidade jurídica. É um avanço civilizacional que passe a ser crime quem os maltrata ou abandona. Sem negar todas as qualidades e benefícios que existe neste convívio doméstico entre homens e animais, confesso que me choca muito sempre que vejo (e acreditem que é cada vez mais frequentemente) adultos a tratarem melhor os canídeos do que as pessoas, sobretudo se estas ainda forem pequeninas. Penso que a empatia humana com os animais é (ou deveria ser) igual à que temos com as crianças: ambos estão numa condição de vulnerabilidade e de desproteção. Não se podem defender sozinhos. Esta semana fiquei pasmada com duas cenas a que assisti na rua, num jardim onde se passeiam cães e crianças. Não sei o que aconteceu durante o confinamento (ou está a acontecer agora, no desconfinamento), mas noto uma impaciência enorme dos pais com os filhos. Será por terem máscara? Os miúdos ouvem-nos pior? Não me parece. A não ser que as crianças estejam ao colo, não são da altura dos pais e… isso nunca os tornou surdos. A desobediência faz parte da infância. Que criança quer sair de um parque infantil quando está divertida? É mais que natural que o pai ou a mãe a tenham de chamar duas ou três vezes para se irem embora. Claro que existem petizes demasiado rebeldes ou ativos. O que não se gosta é de assistir a pais a perderem a paciência com miúdos, como se eles fossem adultos. E com frases de adultos. Se fico chocada ao ver tratar mal um animal, porque não irei ficar quando se trata de crianças? Só num dia ouvi uma mãe a dizer, bem alto “era só o que me faltava!”, quando a filha não entrou logo num carro, distraída com um brinquedo que trazia com ela. Logo depois, um homem bradava no passeio com um miúdo vindo da escola: “não vês que não podes ir para a rua?!” Tudo isto se assimila, mas ninguém é, nem ter de ser, de ferro. O contraste entre as pessoas que passeavam os animais (parece que cada vez há mais com nomes de gente, por sinal) e os pais que estavam com os primogénitos, fez-me pensar. Quero acreditar que a culpa é do vírus e do stress todo que anda no ar. Mas que não se torne uma “moda”, esta coisa de ninguém se incomodar por ver pais aos berros com os filhos. Para a próxima, não sei se deixo passar… (Crónica publicada na revista Lux 1066 de 5 de outubro)

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