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A epidemia silenciosa

Grassa actualmente nos arredores de Lisboa, nomeadamente nos ditos, eufemisticamente, bairros problemáticos, uma epidemia que reflecte algumas características terceiro-mundistas que ainda mantemos, apesar de oficialmente pertencermos ao grupo dos países desenvolvidos.

É uma epidemia que atinge apenas as crianças, mas, por ser contagiosa, acaba por ter repercussões nos pais: estes não podem ir trabalhar por não poderem deixar os filhos no infantário ou na escola, diminuindo em consequência os rendimentos familiares já de si reduzidos.

A alternativa é deixá-los entregues a si próprios todo o dia, à mercê de grupos de marginais, com consequências pessoais e sociais também graves.

Em que consiste esta epidemia? Trata-se de uma infestação do couro cabeludo por fungos, a tinha. Porquê silenciosa? Por várias razões, a primeira das quais é a tentativa de encobrimento dos pais para que os filhos não sejam afastados do infantário ou da escola. Depois pela incapacidade destas famílias de exigirem medidas eficazes de combate à doença.

A estas razões podemos juntar a indiferença das autoridades a uma doença que é sinónimo de subdesenvolvimento e portanto não deve ser publicitada, a que se junta o facto de a população atingida ser muitas vezes de imigrantes

clandestinos e sem peso eleitoral.

E como se manifesta esta infestação? Na maioria dos casos pelo aparecimento de peladas, zonas arredondadas sem cabelo dispersas no couro cabeludo, geralmente com alguma descamação e comichão. No entanto, nem todas as crianças têm peladas. Por vezes há só uma descamação discreta, uma caspa, que não chama a atenção, sendo estes casos diagnosticados apenas quando há um índice de suspeição elevado, normalmente porque surgiram outras crianças com peladas na mesma escola ou porque a ¿caspa¿ não cedeu ao tratamento, chamando a atenção do médico para

a possibilidade de haver outro problema por trás daquela descamação.

Entretanto esta criança já contagiou várias outras. Como se faz o contágio? Faz-se por contacto directo, o que é fácil nestas idades. O uso de pentes, ganchos e fitas de cabelo do doente por outros também transmite a doença, mas estes comportamentos são difíceis de evitar entre amigos.

Como evitar o contágio? É difícil alterar os comportamentos das crianças, por isso o controlo da doença deve fazer-se pelo diagnóstico precoce, o que exige a colaboração dos educadores, que devem estar alertados para esta doença, enviando imediatamente os casos suspeitos à consulta

de dermatologia para a sua identificação e tratamento correctos.

É complicado o tratamento? Nem por isso. O doente deve tomar um medicamento diariamente, em dose proporcional ao peso. Infelizmente, o medicamento mais eficaz e mais económico, a griseofulvina, deixou de se vender em Portugal, provavelmente por não ser compensador do ponto de

vista económico.

Há tratamentos alternativos, que têm a vantagem de ser mais breves, e alguns existem em forma de xarope, mas o seu preço é muito superior, e por isso nem sequer são comprados,

ficando a criança sem tratamento, muitas vezes com o educador e o médico na ilusão de que está tudo controlado… O tratamento destes focos deve por isso ser acompanhado de perto pelas autoridades de Saúde, de forma a garantir o efectivo controlo epidemiológico.

Será que as crianças atingidas devem ser afastadas do infantário ou da escola? Já vimos acima o preço social do afastamento da escola destas crianças já de si carenciadas. A lei diz que devem ser afastadas até iniciarem o tratamento adequado, o que reforça a necessidade de garantir que este é efectivamente administrado.

Hospital CUF Descobertas

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