O chão está coberto de areia. Areia da praia. Os actores movimentam-se num palco iluminado por discretos jogos de luzes e ladeado por um corredor sombrio dividido com pilares.
O público é sobranceiro e assiste numa posição elevada a uma peça de teatro «da inteligência e do prazer. É uma história sobre relações amorosas e relações humanas e uma vida interior muito fortes». Quem afirma é Emmanuel Demarcy-Mota, o encenador de «Tanto Amor Desperdiçado», de Shakespeare.
A história começa quando o Rei de Navarra escolhe três jovens príncipes e juntos juram dedicar-se, em exclusivo, ao estudo durante três anos: nada de mulheres. Mas eis que a princesa de França, acompanhada por três damas da corte, vem negociar com o Rei de França, questões relacionadas com a Aquitânia.
Os quatro homens apaixonam-se pelas quatro mulheres mas todos são obrigados a esconder os sentimentos uns dos outros. Depois de um encontro onde homens e mulheres se disfarçam, desenham-se os vários pares amorosos mas, no meio da festa, anuncia-se a morte do Rei de França. A Princesa terá de regressar ao seu país e as damas impõem aos seus apaixonados um ano de afastamento, como nova prova de amor. Terá sido desperdiçado todo aquele amor?
É isso que o público tem que descobrir num espectáculo bilingue, ou seja, falado em duas línguas: francês e português, com tradução. Os dois reinos (de Navarra e de França) vivem de personagens interpretados por um elenco misto, de actores franceses e portugueses.
Uma opção do encenador e um desafio: «Os actores vêm de caminhos diferentes. Uns são mais experientes. Outros ainda estão no conservatório. Todos juntos trabalham em língua francesa e portuguesa, ficando abertos às propostas e às diferenças das duas nacionalidades.»
Um grupo de dois países, duas culturas, duas carreiras de teatro tentam inventar, juntos, uma estética comum. Um grupo que mostrou desde o inicio curiosidade pelo trabalho dos colegas da outra língua.
Um elenco composto por actores portugueses e franceses, de onde se destacam Dalila Carmo, Nuno Gil, Heitor Lourenço e Vítor D’Andrade, pretendem encontrar na diversidade um caminho comum.
Um caminho onde a oralidade e a linguagem tentam, conseguir a união de duas culturas, o grande propósito do encenador, Emmanuel Demarcy-Mota: «Neste momento a língua inglesa económica é a dominante. Há que tentar continuar o caminho iniciado no século XX, ou seja, a abertura às outras culturas. Vivemos numa Europa aberta que deve trabalhar sobre toda a riqueza linguística que possui».
Esta peça é uma comédia romântica. Mas dará o amor vontade de rir? O encenador responde: «Sim, se formos capazes de rir de nós próprios. Porque o amor em si próprio não é engraçado. Está é implicado nas coisas. É esse lado dialético que a peça aborda».
A actriz Dalila Carmo é a Princesa de França. Afastou-se temporariamente das novelas «por uma questão de saúde mental e não só. Tento sempre fazer uma peça de teatro por ano e optei por este desafio».
Um desafio exigente. Afinal um sinónimo de Shakespeare: «é preciso perceber cada momento da peça, para poder habitar o texto e dar-lhe vida. Exige trabalho de dramaturgia e grande expressividade».
A peça sobe ao palco no Teatro D. Maria II, esta 5ª feira, mas parte para França, em Novembro, onde será apresentado em La Comédie de Reims.
E é o público francês que mais assusta Dalila Carmo: «o público francês não vai perdoar se a sua princesa de França não falar correctamente a língua deles».
Este peça coloca várias questões poéticas. O poeta Nuno Júdice tratou da tradução portuguesa e François Regnault da francesa.
Segundo o encenador «paradas de desafio e sedução, confrontos bilingues quase dançados, múltiplas peripécias, surpresas e quiproquós vão pontuar este grande combate apaixonado».
Um combate falado em português a ser ouvido em terras de França, já em Novembro. Por agora é tempo de ver jogos de amor e linguagem, em Lisboa.
Texto: Irene Pinheiro


