Terça-feira, Janeiro 20, 2026
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Há testemunhos que podem e devem ser tornados públicos – Parte II

Na verdade, o menor dos problemas e ponto. As noites eram bem piores. As luzes apagavam-se cedo para dar lugar a descanso. Qual descanso? À noite não existe a azáfama do dia. A sala de convívio para visitas tinha uma televisão que à noite estava ligada, sem som, e sempre no canal em que estivesse a dar a série «Anatomia de Grey» para entretenimento do enfermeiro que estava de serviço e que sempre que podia se encostava num dos sofás da sala até que a campainha de um dos quartos voltasse a tocar.

Havia silêncio suficiente para ouvir os gemidos de outros pacientes a agonizar com dores, que dependiam totalmente do cuidado dos enfermeiros.

Eu era a miúda de 28 anos que ali andava pelo próprio pé, que fazia a sua higiene sozinha, que ouvia as suas músicas no mp3. Os outros não. Entre homens e mulheres, ninguém deveria ter menos de 50 anos e ninguém tinha acordado a sorrir como eu. Eu não queria ou sentia simplesmente a vontade de poder fazer qualquer coisa por quem ali estava.

Queria uma varinha de condão e dizer-lhes: «Não dói mais. Podem ir para casa.» Não sou médica. Mas senti-me sentada num lugar a que não estava habituada, com uns sapatos que não eram os meus e a ver tudo por um prisma que não conhecia. Podia tudo e não podia nada. Eu é que fui para casa.

Ao fim de um mês já carregava a máquina fotográfica (mesmo não podendo pegar em coisas com mais de 1 kg do lado esquerdo) e ia para as festas cheias de gente, cheias de confusão, cheias de encontrões, já careca e de gorro na cabeça, com uma tez amarela que assustava tudo e todos e um braço empenado. Porque trabalho com recibos verdes, subsídios ou baixas estavam fora de questão. Mais dois meses e a colaboração que tinha com uma editora de publicações foi cortada. Pois, quem é que quer uma empregada neste estado? Se tem cancro, o melhor é mandá-la embora.

Aqui, parte da armadura foi-se. O trabalho e o gosto pela profissão foram sempre fortes alicerces. Cabeça, mãos e tempo ocupados são um grande remédio. Passou um ano e já só me resta o elmo porque a cabeça é o que ainda tento defender.

O Dr. João Vargas Moniz não me tem só a mim como paciente, não me trata de forma diferente de qualquer outro. Mas fez-me sentir única, fez-me sentir especial, transmitiu-me a confiança de um grande amigo. Tenho a certeza de que com todos os seus pacientes ele será assim: genuíno.

Apesar de se encontrar numa especialidade diferente, creio que em muito ele se reconhecerá no seu livro «Sinto Muito». E é para ele e por ele que venho ter consigo e fazer-lhe o tão comum pedido de autógrafo. É o meu gesto de gratidão. É o que está ao meu alcance. Quero vê-lo sorrir.

Querida Joana:

Por vezes são os doentes que aliviam as dores escondidas que os médicos têm dentro de si.

Este seu cuidado é o melhor presente que um médico pode ter, uma homenagem singela mas sentida, um gesto de gratidão que nos faz perceber que no meio de falhas e erros também conseguimos, por vezes, fazer bem o nosso trabalho.

Bem-haja.

Nuno Lobo Antunes

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