Todos os dias se senta à minha frente uma dezena de famílias. A queixa mais frequente, encoberta ou explícita, é a perda de rumo, a falência de estratégias várias na indução dos comportamentos desejados, a necessidade de encontrar apoio na educação dos filhos. Creio que é responsabilidade dos pais dar aos seus filhos uma infância feliz, e ajudá-los na adolescência a encontrarem o caminho que os leve a uma cidadania madura, independente e sólida.
Claro que nem sempre é fácil (eu diria é sempre difícil…), mas há crianças cuja natureza, ou as circunstâncias da vida, é mais complicada do que a de outras.
Défice de atenção e hiperactividade minam o potencial de aprendizagem, comportamentos de oposição e desafio ensombram as relações interfamiliares, lutas de «olho por olho, dente por dente» entre casais em litígio fazem daqueles que deveriam ser o denominador comum do afecto reféns perplexos e confusos.
Frequentemente assisto à falência da autoridade. Na sociedade actual, em que as mães (muitas vezes por necessidade, nem sempre por opção livre) exercem também uma profissão, é com um complexo de culpa de alguma forma amaciado por tolerância de comportamentos que em condições normais não seriam aceites.
Tenho para mim que o exercício da autoridade não é um privilégio ou direito dos pais, é antes um dever, uma obrigação essencial na transmissão para as gerações seguintes de valores que consideramos essenciais. A autoridade deve ser exercida em equipa. Discordâncias entre os pais quanto a determinada atitude ou reacção para com os fi lhos devem ser guardadas e discutidas em privado, sem o que as crianças acorrerão pressurosas a aumentar discórdias num jogo de dividir para reinar.
O que o pai ou a mãe afirma como regra, o outro terá de aceitar, pelo menos até que surja novo consenso. As crianças devem ver os pais como um bloco único, não parceiros ocasionais ou transitórios, ao sabor dos interesses do momento.
Claro que actualmente a escola deverá ser parte fundamental dessa equipa e o papel e a autoridade do professor, apenas questionados em circunstâncias excepcionais.
É preciso que se entenda que a autoridade dos pais, exercida com constância, coerência e sentido de proporção, é factor essencial para que a criança se sinta segura. Ela necessita de conhecer as regras, de ter claros os seus limites. Se tal não for o caso, interrogará os pais na idade adulta, e de forma inteiramente justa, por que não foram eles capazes de lhe indicar o caminho. É preciso também que se compreenda que o exercício da autoridade pressupõe a transmissão de valores. Esses valores podem ser religiosos ou apenas éticos, mas são herança da família, de alguma forma o que define o comportamento daquele grupo de pessoas, actos de fé do que consideram importante na relação e até na essência da própria existência. Não aceito que se deixe «para mais tarde» a afirmação daquilo em que se acredita, sejam os pais católicos, protestantes ou muçulmanos, desde, é claro, que a afirmação de um credo venha guardada no invólucro da tolerância.
A educação vem do exemplo, factor mais forte no moldar de mentes e comportamentos. O único real, dirão alguns. Para a sustentar, porém, é necessário juntar ao exemplo o prémio e o castigo, consequências inevitáveis de atitudes e opções. A noção de que existem consequências previsíveis para as acções, sejam elas boas ou más, dependendo da bondade dos actos, é inescapável, se não queremos assistir nas gerações futuras ao espectáculo actual e absolutamente deplorável, em que figuras de autoridade a perdem, pela manifestação pública da ausência de valores e de princípios. Coitados, não os souberam educar…
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